O improviso tem esta capacidade rara de colocar adultos a brincar novamente. Quando isso acontece, regressam também a curiosidade, a disponibilidade e a presença. Brincamos à séria, com consciência do bem que faz, da forma como o riso alivia a tensão e de como o bom humor aproxima pessoas.
Quando abordo a improvisação em contexto corporativo ou de aprendizagem falo sempre de competências sérias: comunicar com clareza, lidar com o erro, gerir pressão, enfrentar o medo de falar em público, combater o bloqueio e a inibição. E percebo como, visto de fora, o treino do improviso possa parecer uma sessão terapêutica colectiva. Mas não é.
O teatro — particularmente a improvisação teatral — mexe inevitavelmente com emoções, inseguranças e mecanismos de defesa. Isso acontece porque trabalhamos expostos, em grupo, perante o desconhecido, com o tudo o que trazemos connosco e em tempo real. Mas o objectivo não é terapêutico.
O improviso é, acima de tudo, uma ferramenta prática para lidar com desafios concretos de criação, comunicação, colaboração e desempenho sob pressão. E há uma componente que, para mim, é central em todo este processo: a diversão.
O bom humor é o oxigénio da improvisação, é o que torna a atmosfera respirável. Porque enfrentar medo e desconforto em público é uma tarefa séria. Paradoxalmente, só através da leveza conseguimos fazê-lo de forma eficaz.
A psicologia comportamental mostra que o riso reduz níveis de stress, ajuda na regulação emocional e fortalece ligações sociais. Em contextos de pressão, o humor diminui a percepção de ameaça e aumenta a flexibilidade cognitiva — ficamos mais disponíveis para adaptar, responder e colaborar. Isto vê-se claramente numa sala de improviso.
Os aquecimentos e os jogos conseguem desarmar até as personalidades mais fechadas. O riso contagia. Os erros transformam-se em gargalhadas de alívio. O ridículo deixa de ser ameaça e passa a ser norma. Quando isto acontece, algo muda no grupo. A seriedade excessiva dissolve-se. As pessoas ficam mais disponíveis para experimentar, mais abertas, mais presentes e honestas. A confiança aparece muito mais depressa quando todos estão a brincar juntos.
As emoções positivas facilitam a criatividade, a memória e resolução de problemas. Quando estamos emocionalmente mais leves e seguros, aprendemos melhor e arriscamos mais. E improvisar exige precisamente isso: risco.
Ser adulto é uma chatice e esquecemo-nos de brincar. Associamos diversão ao que acontece fora do trabalho, fora da produtividade. Mas brincar (e jogar) é uma das formas mais sérias de aprender. É por isso que defendo e promovo o treino da improvisação e do teatro com a leveza de quem brinca.
A arte — como a dança, a música ou o teatro — tem esta capacidade rara de colocar adultos a brincar novamente. Quando isso acontece, regressam também a curiosidade, a disponibilidade e a presença. Brincamos à séria, com consciência do bem que faz, da forma como o riso alivia a tensão e de como o bom humor aproxima pessoas.
Talvez exista, de facto, algo de terapêutico no improviso. Mas como consequência. Nunca como objectivo. Porque assim que começamos demasiado focados em “corrigir-nos”, perdemos a liberdade necessária para brincar. E sem brincadeira… é muito difícil improvisar (e viver…).


