Grande parte da improvisação não é sobre ser engraçado ou criativo; é sobre aprender a funcionar apesar do medo. Há uma máxima que usamos: “segue o medo”. Porque o medo não desaparece, mas pode mudar de papel.
Falemos sobre o medo. Entrar num palco — seja num teatro, numa sala de conferências ou num open space — e ser visto e ouvido é intimidante para a maioria das pessoas. Ainda mais quando não há treino, nem experiência, nem plano. E no caso da improvisação, acrescenta-se uma camada extra: não sabes o que vais dizer, nem o que vai acontecer. Isto não é só desconforto, é ansiedade real. O medo de errar, de ser ridículo, de parecer ignorante. Tudo isto são mecanismos de defesa. O cérebro está a fazer exactamente aquilo para que foi desenhado: proteger-te.
A psicologia comportamental explica que a ansiedade tem componentes fisiológicos e cognitivos — prepara-nos para reagir, aumenta o estado de alerta, coloca-nos prontos para agir. Em níveis moderados, até nos ajuda a desempenhar melhor. Mas quando ultrapassa esse limiar, começa a bloquear, a reduzir a nossa capacidade de adaptação e decisão. E é aqui que entra o treino.
Grande parte da improvisação não é sobre ser engraçado ou criativo; é sobre aprender a funcionar apesar do medo. Há uma máxima que usamos: “segue o medo”. Porque o medo não desaparece, mas pode mudar de papel.
Há estudos sobre performance que mostram algo interessante: a ansiedade não é sempre inimiga. Quando é interpretada como desafio — e não como ameaça — pode coexistir com estados de alta performance e foco, aquilo a que chamamos “flow”. Ou seja: não é o medo que define o resultado, é a relação que temos com ele e a forma como reagimos.
A improvisação vive naquele espaço instável entre o que antecipamos e o que realmente acontece. Entre a ideia e o acontecimento. E nesse espaço, estamos constantemente a tomar decisões. Para isso, precisamos de avançar mesmo com a vertigem do medo a tirar-nos a solidez do solo. É por isso que em aula criamos segurança. Não para eliminar o medo — mas para o tornar explorável.
As salas de ensaios de teatro de improviso estão cheias de cenas más, de escolhas erradas, de momentos desconfortáveis. E ainda bem. Porque é aí que treinamos a regulação emocional e a capacidade de continuar apesar do erro.
A inteligência emocional de não entrar em pânico ou bloquearmos com o que sentimos. Mesmo depois de anos de experiência em palco e ambientes corporativos, o medo continua lá. Antes de entrar em acção, ele aparece. Mas consigo compreender que já não manda em mim. Em vez de fugir, aproximo-me e muitas vezes é aí que surgem as melhores coisas: ideias inesperadas; caminhos novos, momentos vulneráveis. O medo como combustível. Porque no fundo, improvisar — e falar em público — é isto: agir sem garantias, perante um público, com o risco real de falhar, e ainda assim avançar.
Treinar improvisação dá-nos ferramentas para não sermos dominados pelo medo. E nem sempre corre bem. E está tudo bem. Porque quando deixamos de ver o erro como falha e passamos a vê-lo como material, ganhamos liberdade. E com essa liberdade vem algo raro: clareza para decidir e calma suficiente para continuar.


