Grande parte do treino em improviso passa por ajudar o outro. Servir a cena. Fazer o outro brilhar. Deixar o ego de parte.
O ego é um tema recorrente na improvisação teatral — e um sobre o qual me deparo frequentemente a abordar em contexto de formação.
Grande parte do treino em improviso passa por ajudar o outro. Servir a cena. Fazer o outro brilhar. Deixar o ego de parte. Por isso, costumo pedir aos alunos para deixarem o ego à porta da sala de aula. Não é só para os colocar numa posição de maior generosidade e dedicação ao outro. É também para aliviar o peso constante do julgamento. Aquele ruído interno que está sempre a avaliar: “foi a melhor escolha?”, “devia ter feito diferente?”, “isto resultou mesmo?”.
A psicologia comportamental fala disto como um sistema constante de auto-avaliação. É útil — ajuda-nos a ajustar, a aprender. Mas também consome energia e atenção. E quando toma conta do processo, tira-nos do momento. E no improviso, sair do momento paga-se caro.
Há também uma outra camada: o ego não é só o que quer protagonismo; é também o que castiga. É o que nos diz que falhámos, que não estivemos à altura, que a escolha — mesmo sendo honesta e feita com toda a informação que tínhamos — afinal estava errada. E depois insiste. Repete. Amplifica. Castiga. Bloqueia.
Sabemos hoje que níveis elevados de auto-crítica não ajudam a aprender melhor. Pelo contrário: bloqueiam, criam ansiedade e tornam-nos menos disponíveis para experimentar. É isso que tento que quem treina improvisação coloque de parte.
Mas o ego não é só inimigo, também tem um lado útil. É o que reconhece quando conseguimos elevar o outro. Quando contribuímos para que a cena cresça e resulte. Quando a nossa intervenção fez o jogo da cena funcionar. É o que nos dá a sensação de contributo, de alinhamento, de “isto fez sentido e resultou”. E este equilíbrio não é simples. O mesmo sistema que nos ajuda a ajustar pode tornar-se ruído. O mesmo que nos dá confiança pode tirar-nos humildade. O mesmo que nos empurra para o desconhecido também nos pode paralisar com medo de falhar — perante os outros e perante nós próprios.
Por isso peço que o ego fique à porta da sala. Não porque ele desapareça — isso não acontece. Mas porque, quando conseguimos baixar o volume dessa voz, ganhamos outra coisa: presença, escuta e disponibilidade para construir em conjunto. E, curiosamente, é aí que o melhor trabalho costuma acontecer.
Não é sobre eliminar o ego, é só não o deixar conduzir inteiramente as nossas acções.


